segunda-feira, setembro 27, 2004

A senhora argumenta com um leve olhar de desconsolo:
- Ah, minha filha, Três Passos é uma cidade tão bonita! Ainda mais na mocidade.
A garota, sem jeito, responde:
- Não conheço, mas tenho que ir para Carazinho mesmo...
Nesse instante esse diálogo já havia despertado a avariada atenção do auxiliar de rodoviária e alguns ouvidos atentos e curiosos.
A senhora retruca:
- Mas te garanto que Três Passos ia agradar-lhe. E uma moça tão bonita com certeza ia fazer muito sucesso por lá.
A senhora sorria enquanto a garota fica levemente vermelha de vergonha, que, provavelmente só foi notado por ela mesma.
A garota tenta mudar de assunto:
- A senhora conhece Carazinho?
A senhora responde:
- Sim! Muito já fui para lá! Tenho uma irmã que mora lá, digo, tinha. Ela faleceu há uns anos. Muito triste...
Houve um momento incrivelmente longo de reflexão tendo em vista que só durou poucos segundos, que foi interrompido por um apressado passageiro que passou por elas para guardar a sua mala.
A senhora volta a olhar para a garota e retoma a "venda" de Três Passos:
- Neste fim de semana teremos um festival muito conhecido em Três Passos, o Blumenfest! Uma alegria para a cidade e um deleite para a juventude! Irias te divertir muito por lá!
A garota abre a boca para falar alguma coisa quando é interrompida pelas maravilhas de Três Passos relatadas por aquela irrevogável fã da terceira idade:
- Ah! Que cidade maravilhosa! Meu falecido marido amava aquela cidade como eu! Nossa rua, nossa casa, nossos amigos, enfim, Três Passos é a nossa terra e família! Passei dois dias aqui em Porto Alegre e não vejo a hora de voltar! Só me acalmo quando entro em casa e tomo um chá de camomila, claro, a que eu planto no meu quintal...
O relato da senhora é tão apaixonado e cativante que a garota prefere achar um novo meio de se fazer entender:
- Deve ser ótimo! Mas mesmo se eu fosse para lá, eu não tenho parentes e nenhum lugar para ficar lá. Tem algum hotel?
A velha senhora responde muito atenciosa:
- Imagina! Ninguém deve ir à Três Passos para ficar em qualquer hotel! Podes ser minha hóspede!
Realmente não tinha como se fazer entender. Aquela senhora estava determinada. Última tentativa:
- Que isso! Não poderia abusar da sua boa vontade!
- Sem problemas! Seria um prazer! - Disse a senhora.
- Mesmo?
- Claro! Vou lhe levar à festa! Vais adorar! Tenho uma neta que deve ter a sua idade.
- Bom, nesse caso... Moço, é para Três Passos.

terça-feira, setembro 21, 2004

Após um movimentado fim de semana, ela espera para guardar a sua mala no bagajeiro do ônibus Porto Alegre/Três Passos via Carazinho para voltar para a sua casa. A sua frente uma senhora aprentando uns 65 anos, mas é difícil dizer, uma vez que a vida se prontifíca de dar a cara à idade de cada um.
Guardando as malas estava o auxiliar de rodoviário: um homem de 20 e poucos anos, pele escura, rosto cansado e humor desgastado, afinal, eram 22:30 de um feriado.
Ele pergunta para a senhor:
- Três Passos?
E a senhora responde com muito amor à terra:
- Sim, Três Passos.
Após isso, o auxiliar pergunta para a garota:
- Três Passos?
Ao qual ela responde sem muita expressão:
- Não, Carazinho.
Eis que a senhora olha para tráz e, com um rosto surpreso, diz:
- Não vai para Três Passos?
E é nesses momentos que a vida deixa de ser uma televisão, para ser um teatro.
A garota deixa escapar um pequeno sorriso e responde:
- Não, vou para Carazinho.

to be continued...

quinta-feira, setembro 16, 2004

Ele nunca entendeu direito o que significava aquela história da galinha e do ovo. Era tudo tão banal. Para ele não importava quem tinha vindo primeiro, que diferença fazia isso? Qual a moral dessa pergunta? Ela tem resposta? Essas eram as perguntas que ele não tinha resposta. Dia e noite ele pensava, pensava e nada de chegar a uma conclusão.
Apesar de achar irrelevante tal questionamento, ele o respeitava, pois diziam que era filosofia oriental. Ele sabia que só podia ser coisa de algum velho de olho puxado que fuma um cachimbo longo e fino.
Fez pesquisas. Desenvolveu teses em sua cabeça que cada vez mais fica cheia de perguntas. Até leu em um livro que não existe evolução hereditária em animais formados, apenas nos em formação, então tinha que ter sido o ovo. Só podia ser o ovo. Mas pq ainda se perguntavam isso? Por que era legal? Cult?
Ele chegou a uma conclusão de que isso era mais uma pergunta com resposta que se mantinha devido ao vínculo com a tão famosa e respeitada filosofia oriental, e, com certeza, aquele velho que fuma cachimbo fez uma pergunta incrivelmente filosófica, mas foi só para a sua época? Conclui que muitas das perguntas que são feitas tem resposta, que muitos sonhos são reais e que a verdade é mascarada de realidade pelos olhos humanos.
Mas não foi essa conclusão que lhe fez sentar e tomar um café sozinho. Foi o fato de que ele passou anos se questionando sobre o ovo e galinha, e chegou a uma resposta teórica que podia ter chegado nos primeiro instantes em que começou a pensar sobre o assunto. Uma pergunta simples fez dele alguém mais crítico, mais sábio e mais ignorante ao mesmo tempo. Será que era viável se perguntar pensando em achar uma resposta, ou seria mais sensato se perguntar pensando que pode não haver uma só resposta, que nem tudo é teórico?
Após uma pausa, ele pensou mais. E mais. E outra pergunta lhe ocorreu: vi que a resposta nem sempre é a conclusão, mas o caminho. Então, o que veio primeiro: a luz ou a iluminação?
E ele se sentou de novo e pensou, pensou e ainda pensa.

domingo, setembro 12, 2004

Ai vai um joguinho para passar o tempo...
Denfenda o seu castelo

quinta-feira, setembro 09, 2004

Bah, tem gente que não viu Senhor dos Anéis, mas nada pior do que não ver, é não entender o filme.
Então ai vai uma ajuda para ninguém mais falar besteiras e nem passar vergonha na frente dos amigos: Senhor dos Anéis (a sociedade do anel, duas torres e retorno do rei) em 1'50"!!
Lo senhorito de los anelijos!

sábado, agosto 28, 2004

Tendo como campo de visão uma sala mau decorada e um corpo estendido no chão, Sara coloca um cigarro entre os dedos, umedece os lábios, leva o cigarro até a boca, tira do bolso interno de seu casaco um isqueiro metálico e acende o cigarro. A primeira tragada soa como um suspiro em chamas, a segunda lhe traz uma sensação nostálgica de que já havia visto aquela cena milhares de vezes, e, de fato ela já havia executado trabalhos semelhantes onde todos os corpos se parecem com o da primeira vítima.
Os 10 segundos que Sara permaneceu ao lado do corpo encarando-o caíram para ela como um filme, onde a sua vida era encenada por pessoas que ela nunca conheceu e em situações que ela não estava, mas era a sua vida, tinha que ser, afinal era a única que ela lembrava.
A alta mulher sai do quarto deixando para trás três balas 9mm presas entre o flácido corpo estendido no chão, sujando o que parecia o único tapete da sala.

sexta-feira, agosto 27, 2004

Depois de deitar a sua cabeça no travesseiro ele pensa no dia que passou, em todo os serás, em todos os quem sabe que o seu dia lhe apresentou e em todas as vidas que ele podia ter escolhido. Seria melhor ter dito sim para ela? Será que teria dado certo? Mais uma vez ele sente que a vida tem mais talvez do que sim, que seus medos tem mais bocas do que ouvidos.
Um passo no corredor lhe faz lembrar do que ele será quando decidir por todos os poréns. Será ele alguém que possa dizer sim? Será apenas o talvez que sempre foi? Que sempre temeu. Seus pensamentos se perdem em possibilidades de uma vida diferente, de um beijo, de um tapa. Toda a vida ele sentiu que vesia uma luva que não lhe servia, mas uma que ele amava e temia. Temor. Temor. Temor? De que?
Não seria melhor tentar fazer alguma coisa? Será que daria certo? E se não der? Mas eu quero... Quero...
Seus olhos fechados e seu corpo relaxado dormem enquanto a sua mente se perde em algum pensamento naufragado pelo mar de dúvidas, amores, piadas, cantos, casos e descasos que habitam sua vida e pulsam seu coração.

terça-feira, agosto 24, 2004

Uma vez, num simples dia onde o sol se esconde de todos e nada parece dizer que o tempo ainda anda, que a vida ainda encontra o seu meio ou que o sonho já acabou, encontrei um senhor junto à porta de um bar sem letreiro que me contou uma história sobre um tempo em que a sua tripulação lutava, em que ele sorria e seu navio flutuava. Contou-me com um semblante tranqüilo e conformado com os calos que as suas mãos edificaram e, que mesmo sem labor, continuava a contar-lhe todos os dias sobre sua história.
Durante a história tive a impressão de que seu olhos esboçaram uma lágrima enquanto falava sobre uma mulher, mas que rapidamente evaporou nas ríspidas palavras que fluíram de seu coração. Foi a única vez que vi tal expressão na face de um homem.
Ao terminar a história, ele sorriu com seus profundos olhos e disse sem exitar:
-Não corra por um campo sem saber onde mora o seu coração. Mas, meu filho, não se dê o trabalho de escutar tais palavras e pensar que são verdades, pois, afinal de contas, eu sou apenas um velho sentado ao lado de um bar sem letreiros, com uma caneca vazia e um coração cheio de pegadas.

segunda-feira, agosto 23, 2004

Terceiro cigarro e nada.
Deve ser a chuva. Mas como a chuva poderia atrasar alguém
que está a pé se ela parou fazem duas horas? Pelo menos a
noite está agradável e eu tenho
Da janela de seu astra verde escuro, Sara podia ver um
homem dobrando a esquina rapidamente como se o mundo
estivesse olhando ele.
O homem para em frente a um prédio, procura algo no interior
do casaco, abre a porta, entra no prédio e desaparece na bruma
que o envolvia.
A porta se fecha atrás dele.
Último cigarro. Último gole de café.
Hora de agir.
A luz entra no quarto como o primeiro gole d`água depois de
dias de sede. Um homem vestindo uma napa entra apressado
no apartamento abraçado em uma pasta marrom escuro. Ele fecha a porta e volta a ser rodiado pelos braços da escuridão. Mais uma vez a sala é assolada por uma tênua luz que vem de um pequeno abajur numa mesinha ao lado de uma poltrona para revelar uma sala bége, com uma velha televisão perto da janela, a poltrona e seu abajur, duas portas dispostas uma em cada lado da sala e, atrás do homem, uma mulher magra, alta com uma armas equipada com um silenciador e envolta por um saco plástico na mão. A arma é apontada para a nuca do homem que, ao sentir a presença de alguém e o frio toque do cano, fica imóvel e diz:
- Não há mais nada que possa ser feito...
Após uma curta pausa a mulher diz:
_ Há sim.
Três tiros entram no crânio do homem que, antes de tocar o chão, provavelmente já estava morto.

domingo, agosto 22, 2004

quem sabe esse possa ser o começo de um história interessante...>
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Quem nunca se sentiu sozinho?
Quem nunca teve medo do escuro? De ficar em um lugar onde os únicos sons presentes fossem os da sua imaginação ritmados pelas aceleradas batidas do seu coração?
Eu tive. Eu tenho.
Nem sempre fui assim. Teve um tempo onde o escuro me fazia dormir e a solidão me trazia saudade. Bons tempos que duraram 12 anos.Minha história, apesar de ser escrita a partir das lembranças de uma garota de 12 anos, não foje muito da realidade, uma vez que são as únicas de tenho. Naquele dia, eu descobri que era muito nova para saber e muito nova para entender o que a mente humana esconde debaixo do seu manto de normalidade, o que cada um esconde até de si mesmo. Encontrei Marcos.